Doze meses após as enchentes históricas de maio de 2024, o balanço da reconstrução revela avanços concretos e lacunas que persistem.

Um ano após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 — o maior desastre climático da história do estado —, o balanço da reconstrução é inevitavelmente misto. Há avanços concretos que merecem reconhecimento. Há lacunas que persistem e que revelam os limites tanto da capacidade estatal quanto da solidariedade que, nos primeiros meses, pareceu capaz de superar qualquer obstáculo.

Os números oficiais registram a reconstrução ou reforma de mais de 40 mil habitações, a restauração de centenas de quilômetros de rodovias estaduais e a retomada da operação de dezenas de pontes destruídas pelas águas. O sistema de saúde, que chegou a colapsar em alguns municípios, foi parcialmente recomposto com unidades provisórias e, em alguns casos, com novas estruturas permanentes.

O que os números não mostram

Mas os números agregados obscurecem realidades muito diferentes entre municípios e entre grupos sociais. Cidades menores, com menor capacidade administrativa e menor visibilidade política, avançaram muito menos na reconstrução do que os grandes centros. Famílias de baixa renda, que perderam tudo e não tinham seguro, dependem inteiramente de programas públicos que chegam com atraso e burocracia.

Conversei com moradores de Lajeado, uma das cidades mais afetadas, que ainda vivem em casas com marcas visíveis da lama e com estruturas comprometidas. "O auxílio veio, mas não foi suficiente para reconstruir do jeito certo", me disse um comerciante de 54 anos que perdeu seu estabelecimento e parte da casa. "A gente remendou o que deu."

A questão que não pode ser adiada

Além da reconstrução do que foi destruído, há uma questão mais fundamental que o estado precisa enfrentar: como evitar que o próximo evento climático extremo — que os especialistas garantem que virá — cause danos semelhantes ou maiores.

Isso exige planejamento territorial sério, com restrições reais à ocupação de áreas de risco; investimento em sistemas de alerta precoce; e uma política habitacional que ofereça alternativas dignas para as famílias que vivem em locais vulneráveis. São medidas conhecidas, tecnicamente viáveis e politicamente difíceis. O RS tem um ano de experiência dolorosa para justificar a coragem de implementá-las.


Paulo Henrique Ribas
Paulo Henrique Ribas
Editor-chefe

Jornalista gaúcho com 22 anos de carreira. Cobriu as principais eleições estaduais desde 2002 e especializou-se em política regional e economia do agronegócio sulino.

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